A pandemia e o esperançar

Com base em pesquisas feitas pela PUC-SP,  Beltrina Côrte e Vera Brandão conversaram sobre as emoções em tempos de isolamento social durante a pandemia

No segundo dia da Maratona Digital do Longevidade Expo+Fórum 2021 (2/10), a jornalista, docente da PUC-SP e CEO do Portal do Envelhecimento e Longeviver, Beltrina Côrte, e a pedagoga e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP, editora da Revista Longeviver e coordenadora pedagógica do Espaço Longeviver, Vera Brandão, debateram os sentimentos aflorados nos longevos nesta pandemia da Covid-19 na mesa ‘Bem-Estar e Saúde Mental’.

“Estamos aqui para falar sobre o que aprendemos nesse período tão desesperador. É, também, uma homenagem à perda que tivemos da professora Suzana Medeiros, criadora do Programa de Pós-graduação de Gerontologia Social e coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas do Envelhecimento (Nepe), da PUC-SP, uma mulher que nos inspirou nesse processo de longeviver. Essa nossa reflexão é em sua homenagem”, abriu o painel Beltrina Côrte.

Para instigar o debate, Beltrina questionou Vera Brandão sobre quais foram as percepções do impacto da pandemia nos 50+. Vera mencionou duas pesquisas acadêmicas desenvolvidas pelo Nepe e as situações vividas. “Foi um processo muito rico de aprendizagem, uma oportunidade de refletir o meu lugar como velha nessa sociedade e também como pesquisadora, porque a gente se envolve com o tema.  Foi bem interessante ouvir essas experiências da percepção da velhice e do impacto da pandemia na velhice. Eu, como pesquisadora, mergulhei nesse campo de estudo”, comentou Verão Brandão.

Beltrina colocou em análise os medos gerados pela pandemia e as habituais inseguranças do envelhecimento. “O medo da morte é um medo que, independente da pandemia, nos acomete na velhice. A pandemia exacerbou esse sentimento, mas ele perpassa a nossa existência. Quero reforçar como o sentimento de medo faz parte dessa etapa da vida. Quais foram os principais medos neste período de quarentena?“.

Vera contou da sua vivência, com o surgimento de diversos sentimentos, alguns negativos, outros positivos. “Quando me perguntei quais eram os medos, identifiquei medos mais recorrentes, como o da morte. O medo é um pouco o que nos faz proteger e nos impulsiona para a frente. Mas, ainda mais concreto, foi o medo do sofrimento. Outra inquietação diz respeito às dificuldades financeiras, porque muitos indivíduos desse grupo eram autônomos e ficaram inseguros de perder a renda e da falência econômica. Além disso, identificamos na pesquisa o medo de nunca mais ver a família. Todos esses medos são causadores de estresse e depressão”.

Em contrapartida, Vera ressaltou que foi marcante a menção a sentimentos de esperança e otimismo entre os longevos entrevistados nas pesquisas. “A esperança estava ligada à cura, à vacina, à esperança na ciência, às descobertas. A esperança na ciência e na fé. Foi perceptível também o ressurgimento de um sentimento de coletivo, pois a pandemia promoverá o fortalecimento dos laços familiares e sociais. Está na hora de pararmos de brigas e pensarmos no nosso bem comum”.

Vera contou que viveu a pandemia: “Essa fase da pandemia me pegou muito forte, como uma pessoa em grupo de risco e como pesquisadora. Aprendi muito, sofri como todos e foi um processo muito rico de aprendizado, uma grande oportunidade de refletir sobre o meu lugar de velha na sociedade e de pessoa atuante, como pesquisadora. Uma questão recorrente entre os entrevistados e que perpassa a própria pandemia que é qual é o valor do idoso na sociedade”, disse Vera.

Ao finalizar sua participação no painel ‘Bem-Estar e Saúde Mental’, Vera citou uma frase do pedagogo e patrono da educação brasileira, Paulo Freire, que se encaixa com a esperança relatada pelos longevos que participaram da pesquisa.

É preciso ter esperança, mas ter esperança do verbo esperançar; porque tem gente que tem esperança do verbo esperar. E esperança do verbo esperar não é esperança, é espera. Esperançar é se levantar, esperançar é ir atrás, esperançar é construir, esperançar é não desistir! Esperançar é levar adiante, esperançar é juntar-se com outros para fazer de outro modo” – Vera Brandão.

A reflexão de Beltrina Côrte sobre a citação a Paulo Freire encerrou a mesa. “Esse verbo esperançar nos coloca em movimento e nos permite caminhar em direção a esse novo horizonte. Que esse pacto nos guie a uma velhice solidária e sustentável. Creio que esses tempos pandêmicos nos mostram a possibilidade de estarmos no mundo em movimento de esperançar”.

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